Crítica de cinema - Como se tornar o pior aluno da escola (2017) - CABINE + COLETIVA (06/10/17)




País: Brasil
Data de lançamento: 12 de outubro de 2017
Duração: 1h44min.
Direção: Fabrício Bittar
Adaptação de: Como se Tornar o Pior Aluno da Escola
Roteiro: Fabrício Bittar, André Catarinacho, Danilo Gentili
Autor: Danilo Gentili
Elenco: Danilo Gentili, Carlos Villagrán, Daniel Pimentel, Bruno Munhoz, Fábio Porchat, Joanna Fomm, Moacir Franco
Produtor executivo: Fabrício BittarDanilo Gentili
Gênero: Comédia
Distribuidora: Downtown Filmes

Sinopse: Cansado dos dias enfadonhos em sua escola tradicional, com o estudo mecanizado, voltado para provas, e com a ameaça de repetir de ano, mesmo sendo esforçado, pairando sobre sua cabeça, Pedro encontra no banheiro de sua escola um manual de como se tornar um péssimo aluno, seguido de um kit com itens básicos do pior aluno. Pedro então convoca o melhor amigo, Bernardo, que é um bom aluno, na procura pelo autor do manual.
O diretor da escola, interpretado pelo Carlos Villagrán, (o eterno Quico, do Chaves) instaura medidas cada vez mais austeras, enquanto pode-se observar que ele tenta passar uma imagem de amigo do pessoal, ou como o próprio diretor diz, “broder” da galera.
Quando finalmente o encontram, o mentor é o Danilo Gentili, autointitulado Senhor Miyagi da zoeira. Daí em diante, ele os instrui em como tocar o terror na escola, de medida caótica a medida caótica, matando aula, roubando simulados, indo de ressaca para a escola e chegando ao vandalismo, tudo na base do cinismo e da armação. 

O livro que deu origem ao filme

Segundo Danilo Gentili e Fabrício Bittar, o roteiro foi criado a partir do livro homônimo de Gentili, lançado em 2009. Entretanto, enquanto o livro era escrito em formato de manual, o filme contém um enredo pontuado por instruções em tópicos.
O livro contém ainda páginas negras, para o leitor elaborar seus planos, contem também uma tabela que o leitor pode verificar qual apelido dar para seu amigo, e praticar o bullying.

Referências

Nas palavras do próprio Gentili, ele quis fazer um filme que ele gostasse de assistir, com referências a filmes como “Curtindo a vida Adoidado”, Karatê Kid, Chaves (com a atuação do próprio Villagrán) e Porky’s. Segundo o autor, ator e apresentador, ele desejava um filme pra ensinar a geração atual a não ser tão chata. Bom, se isso fosse uma prova, ele também seria reprovado.
Ao assistir ao filme, fui ficando cada vez mais preocupada de não conseguir rir uma única vez, em meio às piadas de mau gosto, os xingamentos dirigidos a gordos e palavrões. E não é uma questão de não ter senso de humor; eu também vi todos os filmes a que fazem referência, desde Porky’s a American Pie e todos do John Hughes. Mas só “Pior Aluno” pareceu mais uma tentativa desesperada de aparecer, e infinitamente inferior às suas contrapartes internacionais. Não por ser brasileiro, mas por querer extrapolar todos os limites do bom gosto.
Filmes como “A mentira” fazem referência a filmes dos anos 80, contém referências a sexo, alguma violência. Esse não é o problema. Professora sem classe satiriza filmes de professores inspiradores, assim como “Pior aluno” tenta fazer com seu diretor. A diferença é que os primeiros contêm elementos de originalidade.

Aspectos positivos

A ideia inicial, a questão das escolas enfadonhas, voltadas apenas para o vestibular, como se o sucesso acadêmico definisse o aluno, é sem dúvida interessante. A cena de abertura, em sépia e com legendas em alemão, com um jovem Albert Einstein sendo repreendido pela rígida professora, com uma palmatória, também é digna de nota. Podiam ainda utilizar a cena de tempos modernos, com Charles Chaplin se transformando em máquina. O trabalho dos atores mirins, Daniel Pimentel e Bruno Munhoz, também foi bom. Uma escalação que chama atenção é a do ator Carlos Villagrán como o diretor do colégio Albert Einstein. Teve direito até a bordão do Quico, personagem imortalizado pelo ator mexicano. Infelizmente, nem isso salvou.
Danilo Gentili defendeu a escalação do ator que fez parte da infância de tantas crianças:
“Uma coisa legal que a gente tem no filme é o Carlos Villagrán. Eu acho que a gente sempre quis ter no filme um rosto no cartaz, uma pessoa que as pessoas realmente queriam ver no cinema. É um cara que não está em todo filme nacional”.
Eu consigo me identificar com a falta de direção do protagonista. Já passei por isso no ensino médio. Já me vi querendo me rebelar contra professores, só pela zoeira, ou rindo de quem fazia isso. Também já vi com ceticismo a tentativa de professores de parecerem sintonizados com alunos.
Outro mérito foi a trilha sonora composta de músicas de rock, inclusive o clássico “We’re not gonna take it” do Twisted Sister.
Por fim, o trabalho gráfico, com sobreposição de trechos do manual a cada “capítulo do manual” no filme também merece elogio. Remete um pouco a filmes como Napoleon Dynamite.

Falta de originalidade e enaltecimento do bullying

Pena que também teve o enaltecimento do bullying, com uma aula de apelidos para gordos, piadas de gay, e claro, não podia faltar a escatologia.
Em uma cena, a dos apelidos, em que o personagem do mentor OUSA dizer que quem combate o bullying é que chama a pessoa de fraca. Nem sei por onde começar.
Durante a coletiva de imprensa, Danilo Gentili alegou que o personagem é um “mestre do bullying”.
Gente, sério mesmo? Em quantos níveis isso é perigoso? Em diversos momentos o filme satiriza a política antibullying da escola, retratando o CDF da sala, que também é dedo-duro, sendo zoado pelo resto dos amigos. Como se uma política antibullying fosse uma medida austera, assim como lanches mais saudáveis.
Durante a coletiva, Danilo Gentili ainda comentou a recusa do ator Fábio Assunção em permitir que o filho, João, atuasse no filme, e atribuiu a recusa a Fábio achar que o personagem era um mau exemplo.
Quando o mundo caminha, de alguma forma, para algum avanço em questões de gênero, no combate à homofobia, na conscientização dos pequenos racismos de cada dia, vem um que não só não faz nada para melhorar a situação, sendo um comediante cujo foco é as minorias, e não o opressor (se fosse só a escola, o sistema, talvez salvasse), como se a própria missão do filme fosse ficar cutucando e provocando o Bernardo, que é gordo, sempre que pudesse, associando a gordura dele à lerdeza, e incluindo cenas em que o uniforme é pequeno demais para ele, ou vomitando no cachorro.
Em uma das cenas mais infelizes, os meninos chegam ao hotel onde o personagem de Gentili mora, e após ele ouvir a descrição física dos dois, a recepcionista repassa o recado, uma referência a Free Willy sobre “Um garotinho depressivo e uma baleia Orca”. E isso. É. Feito. Constantemente. Porque sem zoar o “gordinho que faz gordice”, o mundo fica muito chato.
A sensação que deu foi a de estar em uma reunião de turma do colégio, com pessoas de trinta e poucos anos de idade saudosistas relembrando o passado como se a escola fosse a melhor fase de suas vidas, e falando que só os filmes da sua época prestavam, enquanto falam mal dos mesmos alvos de anos atrás.
Em dado momento da coletiva, o ator e autor Danilo Gentili defendeu certas cenas alegando que existiam em filmes de Hollywood então “por que não seriam bons para o público brasileiro? Só porque os outros são estrangeiros?”. Não. Deve ser porque os outros são direcionados para outra audiência, mais velha. E não serão lançados no dia das crianças.
Em suma, a sensação que fica após assistir ao filme é a de ver a cópia da cópia de algo que assistimos várias vezes antes. Apesar da tentativa, ao escalar o ator que fazia papel do Quico, não foi nem de perto engraçado como Chaves. Não tinha o conteúdo de Karatê Kid (cujo mote é defender um garoto do bullying, então faltou interpretação de texto até ai) e com certeza não possui o carisma de Ferris Bueller para matar aulas.

Mais anacrônico do que isso, só com risadinhas de fundo. 

Quer assistir ao trailer oficial: https://goo.gl/TpiftE
Curta a página do filme no Facebook: https://www.facebook.com/ComoSeTornaroPiorAlunodaEscola/


Fotos da coletiva de imprensa:






Momento muito especial que Bruna teve ao lado do Carlos Villagrán:


Crítica colaboradora Larissa Rumiantzeff

Agradecemos mais uma vez à Aliança de Blogueiros do Rio de Janeiro que proporciona esses encontros incríveis e a oportunidade de ter acesso às cabines para fazermos as críticas para vocês!


3 comentários

  1. Sendo bem sincera, eu não curto o trabalho do Gentili.
    Pessoas que não levam o bullying a sério e só sabem fazer piadas diminuindo os outros não tem a menor graça pra mim. Fico com o humor daqueles que sabem fazer questionar e ir contra o sistema.

    http://nemteconto.org

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    1. Essa parte do trabalho dele é bem complicada, infelizmente.

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    2. Thati, pois é. Eu tenho o mesmo problema. Não vejo graça em um humor q coloca as pessoas pra baixo. N gosto desse senso de humor de fundão da sala, de apelidinhos, como se a pessoa precisasse chamar atenção. Até pra criar auto ficção a gente foca numa época q nos ensinou algo, q foi importante de alguma forma. Claramente alguém ficou preso na época de ouro dele, a única época em que se sentia importante. Eu teria pena, se não ficasse preocupada por ele ser formador de opinião.

      E também, um filme desses pra criança? Tinha uma cena q os garotos simulavam tocar no penis do personagem do Porchat. Critério passou longe.

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