Resenha - O Ódio que Você Semeia - Editora Galera Record



A Aliança de Blogueiros do Rio de Janeiro promoveu uma ação diferenciada referente a dois livros que recebemos no encontro com a equipe de marketing do Grupo Editorial Record. A obra "O Ódio que Você Semeia" foi lida e resenhada de acordo com as perguntas que os blogs participantes formularam.

Título Original: The hate you give
Autor(a): Angie Thomas
Editora: Galera Record
Páginas: 378
Ano de Lançamento: 2017
Gênero: Ficção Jovem Adulto, Contemporânea

Do que se trata o livro?
Um casal de jovens negros em um carro, à noite, voltando de uma festa em um bairro pobre dos EUA, após uma festa no fim de semana. Os dois conversavam sobre a música de Tupac, e do significado da expressão Thug Life (Vida Bandida em Inglês). Khalil explica que as letras significam “The hate you give little children fucks everybody, ou O ódio que você dá as criancinhas f*** com todo mundo". Eles já fazem referência ao título.

Khalil explica sobre o racismo, e sobre como pouco a pouco, as injustiças vão se acumulando, até gerarem um senso de raiva nos negros, desde a infância, pronto para explodir.

Então um policial manda o carro parar, sem ter motivo específico para tanto, e durante a revista, se assusta com um movimento repentino do rapaz e atira. É assim que Starr Carter presencia Khalil, seu amigo de infância, ser morto bem na sua frente. Ele estava desarmado.

Não é a primeira vez que isso acontece. Incidentes como esse são rotina em sua comunidade, ao ponto de Starr ter internalizado as instruções em caso de abordagem policial. Mãos no alto da cabeça, imóvel e em silêncio. Responder apenas o que for perguntado, sem o menor sinal de desafio. Na infância, Starr Carter perdeu a melhor amiga, Natascha, quando um atirador de uma gangue a acertou em cheio no coração. Isso motivou os pais a colocarem os três filhos em uma escola particular, em um bairro afastado da mesma cidade, procurando uma vida melhor para eles, com mais oportunidades.

Desde o incidente com Natascha, que passou completamente despercebido pela mídia, ela transita entre dois mundos: O do bairro onde ela mora, com os conflitos entre gangues, o tráfico de drogas, a truculência policial e a impunidade, mas também onde ela pode ser ela mesma, e a escola onde estuda, com os amigos brancos, o namorado branco, e ter que assumir uma versão de si mesma que não os faça associá-la ao gueto. Não pode reagir, não pode usar gírias. Uma versão mais conformada e passiva de si mesma.

Porém, se o assassinato de Natascha promove uma mudança de escola, o de Khalil muda completamente a vida de Starr, por ela ser a única testemunha da brutalidade policial. E a medida que a adolescente de 16 anos tenta se calar, com medo das consequências, colocam cada vez mais fatos para incriminar o amigo morto, por ser preto e pobre. Logo, recaem-se suspeitas de ele estar armado, de ele ser traficante, e até fazer parte de uma gangue, tudo para dar razão ao policial.

Mas quando, movida pela injustiça contra a memória de Khalil, ela decide falar o que realmente aconteceu, a situação piora, e as vidas dela e de todos os que ela ama correm risco.

Como foi a sua experiência ao ler o livro? Se já leu outros títulos da autora, compare os enredos. 
O livro de estreia de Angie Thomas foi uma das grandes revelações do mundo editorial. Por falar de brutalidade policial, tráfico de drogas e racismo, pareceu algo muito próximo ao que vivemos no Brasil. Porém, por eu ser branca, de classe média, nunca foi próximo da minha realidade o suficiente. No máximo eu poderia dizer que vivo, e me vi, do outro lado do abismo. Do lado que cria um papel higiênico e se apropria dos dizeres “Black is Beautiful” e continua sem entender porque é racismo.

Eu me senti criticada, enquanto grupo, e ao mesmo tempo me vi como alguém privilegiada.

Ainda assim, pude me identificar com a trama, pelo tema principal. 

“O ódio que você semeia” fala do medo paralisante, que nos impede de fazer algo quando vemos uma injustiça, quando sabemos que a corda arrebenta para o lado do mais fraco. O tempo todo, na história, Starr tem medo de se pronunciar em defesa de Khalil, por causa de represálias, por onde vive, e por ser tratada de forma diferente pelos colegas. Medo da polícia e das gangues, cada uma com seus motivos para querer calar a testemunha. Ela tem medo de morrer, ou de ver mais algum de seus entes queridos morrerem, e esse é um medo absolutamente razoável, seja qual for a sua idade.

E isso é universal. A intensidade é que muda. Só precisamos nos colocar no lugar do outro. 

Quais foram os maiores destaques do livro? 
Não vi nenhum destaque em termos de personagem, mas a maioria dos personagens me cativou, mesmo os vilões ou maus-caracteres. Eu adorei o DeVance, por, apesar de prover o alívio cômico na maior parte das vezes, tinha um lado sério e até frágil. Creio que Starr e DeVance representavam os dois lados de uma moeda, que representava as possibilidades de vida para o Khalil. Starr teve a chance de viver em um mundo privilegiado, ao qual ele tentou ter acesso, às chances que ele queria ter, e DeVance era o destino que Khalil tentou evitar ao máximo.

Houve algum personagem que poderia ter um destaque maior na trama, que você gostaria de conhecer? E por quê? 
Eu adorei cada um dos personagens secundários da história, desde irmã do Seven, até o DeVance, que a princípio pensei que fosse virar o novo interesse romântico dela. Porém, não consigo imaginar um destaque maior para nenhum deles sem sacrificar o restante da trama. 

O que você mudaria no livro ou que poderia ser excluído na sua opinião porque não acrescentou nada no enredo? 
Eu não acredito que mudaria nada. Cada um dos elementos, dos personagens coadjuvantes, desde o DeVance até a Hallie, foram importantes para contextualizar a história. Cada uma das coisas que incomodavam serviram para fazer a Starr reagir, e modificar a personagem, até o ponto que no fim da história, ela mudou completamente. No entanto, acho que talvez o desfecho tenha se arrastado um pouco. 

Para finalizar, para qual perfil de leitor você acreditaria que esse livro seria perfeito? 
O romance Jovem Adulto de Angie Thomas é maravilhoso. Porque é um belo tapa na cara da sociedade. Porque ele incomoda, toca na nossa ferida e é atemporal. E só é considerado jovem adulto porque tem uma protagonista jovem, com certas referências pop (como o maravilhoso “Um maluco no Pedaço e “A família da noiva”), porque o tema nem a linguagem se restringem a uma faixa etária específica.

Como eu disse acima, não acredito que o rótulo de Jovem Adulto faça juz a esse livro. Ele deveria ser lido por jovens e adultos, de todas as cores e pertencentes a diferentes contextos socioeconômicos. Os negros poderiam se ver representados pela questão do racismo, da violência. Os brancos, para se darem conta do papel que desempenham na propagação dessas injustiças, no papel daqueles que relativizam os abusos.

Assim como outras obras do gênero, que criticam e entretêm, como “Cara Gente Branca”, série da Netflix, ou o livro Americanah, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Ele conta uma história boa (mesmo que não seja leve o tempo todo), e insere crítica social no meio.

A história de Starr poderia se passar no Rio de Janeiro e ela poderia morar em uma favela ou em um bairro mais humilde e os dois podiam estar voltando de um baile funk. Só mudaria o cenário, e continuaria real.

Onde encontro para comprar?

Resenhista colaboradora Larissa Rumiantzeff

Blogs que participaram da ação: 



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