Crítica de Cinema - Extraordinário (2017)



Título Original: Wonder
País: Estados Unidos
Data de lançamento: 07 de dezembro de 2017
Classificação: 10 anos
Duração: 1h53min.
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic
Produtor: David Hoberman
Roterista: Stephen Chbosky, Steven Conrad, Jack Thorne
Autora da Obra Original: R.J. Palacio
Gênero: Comédia Romântica
Distribuidora: Paris Filmes

Sinopse: Aos 10 anos, August Pullman (Tremblay) está prestes a ir para a escola pela primeira vez na vida. Ele possui um tipo raro de deformidade facial, a que ele se refere como Disostose Mandibulofacial, que basicamente é causada pela Síndrome de Treacher Collins. Devido a uma rotina de incontáveis cirurgias estéticas e reparatórias, para ajudá-lo a enxergar, e até ouvir direito, August, ou Auggie, como é chamado por todos, teve aulas em casa com sua mãe, Isabel (Julia Roberts). Porém, quando ele chega à segunda parte do ensino fundamental (Middle School nos Estados Unidos) os pais decidem que ele precisa de uma educação formal, onde ele possa socializar com outras crianças. Ele então é matriculado na Beecher Prep, uma escola particular. 

Todo aluno de ensino fundamental enfrenta problemas com mudanças. Auggie precisa lidar com o seu crescimento, enquanto possui um rosto fora do padrão de beleza (o que é colocar de forma bem branda) em meio a crianças e adultos que ainda não sabem lidar com as diferenças. Quem vai ensinar, e quem vai aprender mais nessa equação?

Antes de ver o filme, eu fiz questão de ler o livro que deu origem ao roteiro, e fiquei feliz de ver como Stephen Chbosky adaptou a história de um veículo para o outro. Para quem não sabe, Chbosky também escreveu e adaptou “As vantagens de ser invisível”, um ponto positivo em termos de respeito ao material original.

Ao longo do livro, sabemos da história de Auggie e da sua família e amigos sob diferentes pontos de vista, como a sua irmã Via, e seus amigos Jack Will e Summer. No filme, essa estrutura foi mantida, mas o ponto de vista da Summer foi cortado, por questões de espaço, imagino.

Os atores estão excelentes. Foi bom ver a Julia Roberts em um papel de mãe, e embora muitos não gostem da atuação dela, eu confesso que adoro sua gargalhada escandalosa. Owen Wilson tem uma tendência a me irritar em seus papeis de comédia (principalmente quando faz par com Vince Vaughn). E foi uma surpresa ver a Sônia Braga em uma participação especial como avó de Auggie e Via, embora, para quem tenha lido o livro, já sabe que Isabel é brasileira.

Eu só tenho uma ressalva quanto ao elenco: podiam ter escalado Alice Braga, bem como qualquer outra atriz brasileira, como mãe de Auggie, porque ator americano fazendo papel de brasileiro é dose. Além do que, um leve sotaque daria um toque de verossimilhança ao papel. Não chega a ser algo que detestei, mas que passou pela minha cabeça, e com certeza eu observaria, se fosse diretora de elenco.

Contudo, questões como essa são ofuscadas pelo brilho do enredo. O livro em si já me emocionou, por questões pessoais. Ver crianças e animais sofrendo me faz sofrer também, por questões de humanidade. 

Empatia e bullying são palavras repetidas com frequência hoje em dia, e sempre há os que, tendo sofrido na infância, entram em uma Síndrome de Estocolmo e acreditam que o bullying e a intolerância fazem parte do crescimento. Eu discordo disso, e sempre discordarei. A gente já lida com diversos problemas durante o crescimento e por toda a vida. Já brigamos com quem somos, descobrimos novos interesses e nos afastamos de antigos (a Via expressa bem essa mudança no filme). De uma hora para outra, quem achávamos ter muito a ver conosco de repente se torna alguém estranho para nós. Isso não é culpa de nenhuma das partes. Discutimos com nossos pais. São crises naturais da vida.

Empatia é a habilidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Bullying foi um anglicismo adotado relativamente recentemente, mas parece encompassar desde zoações de amigos à crueldade, para quem trata o termo com casualidade, o que não é o caso. Pra quem tem dificuldade de entender, é só trocar a palavra bullying por crueldade e covardia. Agora não parece frescura, né?

Eu já testemunhei uma turma inteira de terceira série ostracizar um colega. Isso não é natural. Muitas vezes observei, com medo de tomar partido, cenas de crueldade. Também já participei e já fui alvo. Já tentaram arrancar meu sapato para me fazer correr mais rápido na aula de educação física. Isso não é natural e não deveria ser tratado como algo normal.

E isso foi com pessoas que, em sua maioria, se sobressaíam por um motivo ou outro, de forma positiva ou negativa. Você é sensível? Vira alvo imediato. É gordinho? Tá ferrado. Só tira notas altas? É melhor também ser bom em esportes e ser superpopular entre os seus colegas. Algumas zoações são inocentes e dá para levar com bom humor. Outras, não dá. E é impossível saber quando você pode fazer uma pessoa se sentir péssima. É responsabilidade dela também cuidar da própria autoestima para não ser afetada tão facilmente? Talvez. Com certeza é útil.

Contudo, não deixa de ser responsabilidade nossa tentar não deixar o dia de alguém pior. E, se por algum acaso, a pessoa avisa que o que você disse a afetou, é um sinal de maturidade pensar a respeito e se desculpar. Isso é questão de humanidade, é viver em sociedade, não é um conceito novo criado junto com o nome Valentina e Enzo. Pode me chamar de politicamente correta, mas eu tenho como regra pessoal tentar não piorar o dia de ninguém. Isso é lei de jardim de infância, aprendida junto com “dividir o giz de cera”.

Nem Auggie, nem as pessoas a sua volta são felizes o tempo todo, o que dá para ver com a mudança de perspectivas. O próprio Auggie faz o possível para não deixar que a crueldade de certas pessoas, intencional ou não, o afete, mas isso acontece. Via tenta lutar contra o ressentimento pela atenção que não recebe dos pais, ao mesmo tempo que ama o irmãozinho e o trata de igual para igual. E Jack Will erra, por medo das consequências sociais de ser amigo do Auggie, mas depois se redime. O personagem tem um senso de humor e uma voz maravilhosos, em ambas versões.

Mas Extraordinário não é um romance sobre fitas cassetes deixadas para aqueles que fizeram do ano de Auggie um inferno. O tom é otimista. Em uma das cenas, a professora de ciências cita a lei da inércia, segundo a qual um objeto em movimento continuará em movimento a não ser que seja aplicada força igual ou maior em sentido contrário. O filme é sobre a força de Auggie para mudar o mundo ao seu redor.

Indico “Extraordinário” para todas as idades. Tanto o livro quanto o filme.

Assista ao trailer oficial: https://goo.gl/WVVami

Crítica colaboradora Larissa Rumiantzeff


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